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Julho turquesa conscientiza população sobre doença do olho seco

LĂĄgrima interfere na qualidade de vida das pessoas, diz oftalmologista

Por Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil - Rio de Janeiro em 18/07/2023 às 19:03:09
© Arquivo/Marcello Casal Jr./Agência Brasil

© Arquivo/Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Julho é o mĂȘs de conscientização da população sobre o olho seco, doença que estĂĄ aumentando muito em todas as faixas etĂĄrias da população feminina e masculina, embora as mulheres sejam mais impactadas, principalmente pelas alterações hormonais que experimentam ao longo da vida, como a menopausa, uso de pĂ­lulas contraceptivas e terapia de reposição hormonal. A campanha mundial Julho Turquesa é fruto, no Brasil, de parceria entre a Associação dos Portadores de Olho Seco (APOS) e a Tear Film Ocular Surface Society (TFOS), lĂ­der global em educação em saĂșde ocular.

No Brasil, a campanha acontece pelo quarto ano consecutivo no inverno, em julho, mĂȘs mais seco do ano, e ganhou a cor turquesa, que representa a cor da ĂĄgua limpa, da lĂĄgrima, segundo explicou nesta terça-feira (18) à AgĂȘncia Brasil o presidente da APOS, oftalmologista José Alvaro Pereira Gomes, também professor de oftalmologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A campanha visa mostrar a importância da doença também para a saĂșde pĂșblica, destacou o professor da Unifesp.

LĂĄgrima

Olho seco é uma doença relacionada à diminuição ou alteração da produção da qualidade da lĂĄgrima. "E a lĂĄgrima é fundamental para a manutenção da transparĂȘncia da córnea, que é essa lente que a gente tem na frente do olho. A lĂĄgrima nutre a célula da superfĂ­cie da córnea, protege de infecções e regulariza. Então, ela tem também uma função óptica", informou o médico.

A pessoa que não tem lĂĄgrima, ou tem uma alteração na qualidade da lĂĄgrima, começa a ter problemas de visão e apresenta vĂĄrios sintomas que interferem com a qualidade de sua vida pessoal. Entre esses sintomas, o presidente da APOS destacou sensação de areia e de secura, dificuldade de sair na luz, irritação ocular. "Isso vai piorando durante o dia e, no final do perĂ­odo, costuma estar bem pior. É uma coisa que interfere com a qualidade da vida das pessoas".

HĂĄ uma piora da doença nessa época do ano no Brasil, quando o clima fica mais seco, cai a umidade relativa do ar, o ar fica mais poluĂ­do. "Com isso, a lĂĄgrima evapora mais rĂĄpido e as pessoas que tĂȘm olho seco começam a se sentir pior, começam a sentir mais sintomas". Depois, a doença pode se tornar crônica. O primeiro tratamento é feito com lubrificantes tópicos, ou colĂ­rios. A segunda linha de tratamento, quando tem um componente inflamatório, envolve colĂ­rios antiinflamatórios ou que contenham algum corticoide. "Isso tem que ser baseado em um bom exame oftalmológico para a gente indicar um tratamento". Casos mais graves vão para oclusão da parte lacrimal e incluem até mesmo cirurgia.

Segundo destacou Gomes, o ideal é, aos primeiros sintomas, o paciente procurar um oftalmologista que poderĂĄ identificar o grau da doença, diferenciar o tipo de olho seco e tratar de maneira apropriada. Ele condenou a automedicação porque o paciente, muitas vezes, usa colĂ­rios errados que podem piorar o quadro, em vez de melhorar.

A lĂĄgrima é formada por vĂĄrias camadas: camada aquosa, produzida pelas glândulas lacrimais; camada de mucina, produzida pelas células da conjuntiva; e camada lipĂ­dica, mais externa, que controla a evaporação da lĂĄgrima. Essa combinação mantém a superfĂ­cie do olho lubrificada, protegida e clara.

Fatores de risco

Segundo José Alvaro Pereira Gomes, o olho seco é muito comum em todo o mundo. Trabalhos recentes publicados na literatura internacional mostram que 14% da população brasileira sofrem de olho seco. Na cidade de São Paulo, esse nĂșmero alcança 24%. Outras pesquisas feitas pelas universidades de Campinas (Unicamp) e pela Unifesp revelaram que o olho seco afeta entre 24% e 25% da população jovem das duas instituições.

Alguns fatores de risco chamaram a atenção dos pesquisadores. O primeiro é o nĂșmero de horas de sono. "Abaixo de seis horas de sono, a pessoa fica mais exposta e tem mais olho seco". Outro fator é o uso de contraceptivo oral. Um terceiro fator que contribui para essa doença é o nĂșm Olho seco ero de horas que as pessoas ficam nas telas de computadores e celulares. "Esse é um dos fatores mais importantes. É por isso que o olho seco estĂĄ aumentando a frequĂȘncia nos jovens porque o mundo, hoje em dia, é praticamente digital. São fatores que, realmente, tĂȘm aumentado demais a incidĂȘncia de olho seco nessa faixa da população que não é a mais tradicionalmente afetada pela doença".

Computador, Alunos (Marcelo Camargo/AgĂȘncia Brasil)
Tela digital em uso contĂ­nuo provoca olho seco, diz médico - Marcelo Camargo/AgĂȘncia Brasil

Contribuem também para o olho seco outros elementos, como fumaça, ar-condicionado, alguns medicamentos, entre os quais antialérgicos e antidepressivos, além da isotretinoĂ­na para tratamento da pele. "É multifatorial". Gomes lembrou também dos casos mais graves do olho seco, que englobam algumas doenças como a artrite reumatoide, sĂ­ndrome de sjogren. Esses tipos mais graves de olho seco podem levar, inclusive, à perda visual.

Doença silenciosa

José Alvaro Gomes disse que o olho seco é uma doença silenciosa. "Ela não faz muito barulho mas pode começar a incomodar de tal forma que a pessoa fica sintomĂĄtica e, muitas vezes, tem até que parar de trabalhar. Principalmente, quem lida o tempo inteiro na frente do computador. Porque, quando vocĂȘ olha na tela de um computador ou por qualquer outro dispositivo de tela, vocĂȘ diminui muito o nĂșmero de piscadas que renovam a lĂĄgrima. A pessoa deixa a lĂĄgrima evaporar de forma mais rĂĄpida. Então, os sintomas pioram demais".

A córnea é uma estrutura extremamente enervada e talvez seja a estrutura do corpo humano que tenha mais densidade de enervação. "AĂ­, quando começa a dar sintomas, eles vão se agravando, inclusive com intolerância e dor, o que leva a pessoa a não poder exercer a profissão. HĂĄ pacientes mesmo que não conseguem sair de uma sala escura, usam óculos escuros o tempo todo. Quando entram nessa fase, o tratamento é um pouco mais difĂ­cil".

Uma ótima recomendação, segundo o presidente da APOS, é a pessoa piscar vĂĄrias vezes quando estiver trabalhando em um computador. Outra dica é a altura da tela. O ideal é que fique abaixo da linha do olhar, "porque aĂ­ vocĂȘ deixa um pouco mais fechado e diminui a evaporação da lĂĄgrima". Se o ambiente tem um ar-condicionado muito forte, a sugestão é colocar um umidificador de ar; fazer pausas a cada 20 minutos ou meia hora, quando se deve lembrar de pingar um lubrificante. Depois, voltar para a rotina. "Não ficar direto na frente do computador. São recomendações muito importantes".

Edição: Valéria Aguiar

Fonte: AgĂȘncia Brasil

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