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Especialistas discutem alternativas a tratamentos manicomiais

ConferĂȘncia em BrasĂ­lia elaborarĂĄ propostas para polĂ­tica nacional

Por Pedro Peduzzi - Repórter da Agência Brasil - Brasília em 11/12/2023 às 17:24:34
© Fernando Frazão/Agência Brasil

© Fernando Frazão/Agência Brasil

A 5ÂȘ ConferĂȘncia Nacional de Saúde Mental recebe em Brasília cerca de 2 mil profissionais para formular propostas para a Política Nacional de Saúde Mental. Tendo por base as comprovações de ineficĂĄcia dos tratamentos manicomiais, especialistas e profissionais do ramo debaterão temas como internação compulsória, comunidades terapĂȘuticas e o principal, o cuidado em liberdade, com garantia de direito à cidadania.

A conferĂȘncia teve início nesta segunda-feira (11), e segue até a quinta-feira (14). A expectativa dos organizadores não é pequena, uma vez que o encontro não ocorre hĂĄ 13 anos. Entre especialistas e usuĂĄrios do Sistema Nacional de Saúde Mental, uma unanimidade é que os manicômios estão longe de representarem qualquer solução enquanto tratamento. Em contraposição, a absoluta maioria defende o chamado tratamento em liberdade.

"Manicômios eram depósitos punitivos de pessoas. Não havia cuidado ou respeito aos direitos daqueles que lĂĄ viviam. JĂĄ o tratamento em liberdade é o oposto. Entende que a loucura é tratĂĄvel; que a pessoa [com transtornos mentais] pode ser acolhida e tem potencial e capacidade para trabalhar. É tudo uma questão de adaptação", explicou à AgĂȘncia Brasil a coordenadora adjunta da conferĂȘncia e integrante dos conselhos Nacional de Saúde e Federal de Psicologia, Marisa Helena Alves.

Psicóloga e professora universitĂĄria, Marisa explica que saúde mental é "o completo bem-estar", e que isso envolve elementos como qualidade de vida, moradia, empregabilidade, bem-estar social, direitos e, principalmente, o cuidado em liberdade. "Neste caso, o ofertado pelo SUS [Sistema Único de Saúde]", complementa.

É tendo em mente esses objetivos que ela e os demais participantes da conferĂȘncia vão elaborar propostas para a Política Nacional de Saúde Mental.

"Estamos em um momento de retomar e reorganizar essa política, após anos de descaso e 13 anos sem conferĂȘncia. O Departamento de Saúde Mental foi criado recentemente e ampliado sua atuação para aqueles que vivem situações com ĂĄlcool e drogas", disse ao ressaltar que vĂĄrios problemas e a piora na assistĂȘncia às pessoas com transtornos mentais ficaram ainda mais expostos após a pandemia.

Desafios

Ela destaca a necessidade de o país melhorar os atendimentos nas redes e centros de Atenção Psicossocial; e de mais investimentos, inclusive para a criação de serviços, visando o atendimento local nas situações de crise.

Entre os desafios a serem enfrentados pela política a ser implementada estĂĄ o de retirar "estigmas excludentes e o ranço histórico" que associam loucura a perigo. "No passado, essa associação não existia. Veja o caso dos bobos da corte. Eram doidos com acesso à sociedade. Com o passar do tempo, esse conceito e olhar sobre o louco mudou, associando a ele uma suposta periculosidade que, na verdade, abrange todos os grupos de pessoas. Essa associação perigosa é fruto de preconceito", argumentou a professora universitĂĄria.

Ela explica que, no surto, qualquer pessoa diz o que pensa, e que isso afeta poder, governo e público. "Por ser algo incômodo, acabou resultando no afastamento entre loucos e sociedade", acrescentou ao explicar que os manicômios foram então a solução encontrada para esse afastamento.

Liberdade e direitos

"Enquanto tratamento, os manicômios não tĂȘm nenhum benefício. JĂĄ os tratamentos em liberdade tĂȘm sido um sucesso, e por isso são o pilar da reforma psiquiĂĄtrica que queremos para o país. É uma forma de tratamento que garante respeito aos direitos do cidadão. Toda pessoa com transtorno mental é um cidadão de direito, e merece ser tratado como tal. Não se pode punir ninguém apenas por ter transtorno", defende ao alertar sobre o risco de novas versões de manicômios virem disfarçadas de comunidades terapĂȘuticas.

Em tratamento psiquiĂĄtrico hĂĄ 27 anos, a usuĂĄria do SUS Saúde Mental Helisleide Bomfim dos Santos, de 51 anos de idade, defende não apenas os cuidados em liberdade, mas também a regionalização do tratamento, com redes psicossociais locais para atendimentos emergenciais, de forma a evitar a necessidade de longos deslocamentos para pessoas que se encontrarem nessa situação.

"Manicômio não cura. Tortura", disse ao ressaltar a importância do autocuidado; do amor-próprio e da autoestima como elementos colaborativos para a eficiĂȘncia dos tratamentos, desde que em liberdade.

No caso de Helisleide, que iniciou o tratamento após uma depressão pós-parto, uma atividade que em muito ajudou na superação das crises foi o teatro. "O teatro me ajuda e me fortalece. O prazer que ele me proporciona acaba por me ajudar, principalmente a me cuidar. A sensação que tenho é de que ele é o remédio que me faltava", acrescentou ao enfatizar que, tendo cuidado, a vida de quem carrega essa patologia pode ser boa e repleta de conquistas.

"Eu viajo sozinha, faço teatro, tenho autonomia, sou empoderada, feminista e antiproibicionista, com relação ao uso de drogas enquanto ferramenta para redução de danos", disse, esclarecendo que danos podem estar relacionados a drogas ou a relações interpessoais. "No meu caso, faço uso de maconha por identificar nela um problema menor", explicou.

Helisleide é técnica em enfermagem aposentada. A vivĂȘncia profissional associada aos tratamentos feitos ao longo da vida deu a ela um olhar apurado sobre a situação não apenas dos pacientes, mas dos profissionais de saúde.

"Precisamos de políticas públicas voltadas tanto aos usuĂĄrios do sistema como para os profissionais ligados a ele. Precisamos dar atenção especial aos profissionais da saúde, porque tĂȘm uma rotina complicada. HĂĄ um índice alto de profissionais, inclusive que trabalham com saúde mental, que acabam ficando mentalmente adoecidos", alerta ao defender que as propostas a serem elaboradas durante a conferĂȘncia tenham também foco nesses profissionais.

Fonte: AgĂȘncia Brasil

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